CINEMA E ENSINO DE HISTÓRIA:
REALIDADE ESCOLAR, PROPOSTAS E PRÁTICAS NA SALA DE AULA
Jairo Carvalho do Nascimento
Universidade do Estado da Bahia –
UNEB
jcnascimento@uneb.br
Partindo desse princípio, ao
aplicar uma atividade com filmes na sala de aula, feito preliminarmente o
levantamento e a escolha do filme, a partir do conteúdo da unidade e da faixa
etária da turma, o professor deve tomar alguns cuidados preliminares, imprescindíveis
para o bom desempenho de sua prática pedagógica. Dois cuidados são necessários:
o cuidado técnico-operacional e o metodológico. O cuidado técnicooperacional consiste na precaução que
o professor deve ter em verificar, com certa antecedência, se os equipamentos
eletrônicos estão em perfeitas condições de ser
usados, para que não ocorra
nenhuma surpresa no dia da aula.
A parte metodológica é o suporte
que orienta o bom andamento da atividade pedagógica. No caso em apreço, resume-se
em dois momentos: a preparação e a execução. Ao todo são cinco passos fundamentais
que devem guiar a prática docente.
a) A Preparação
1. Primeiro passo (ver o
filme)
Assistir ao filme que se pretende
usar, pelo menos mais de uma vez. Normalmente, o professor escolhe por
indicação de outro colega ou porque leu e tem algumas informações acerca do
filme. Se o professor já conhece o
filme, o caminho torna-se mais fácil ainda. Deve ter um “olhar clínico”,
prestando atenção nas cenas, observando detalhes e diálogos importantes. Tudo
deve ser anotado. Em seguida, fazer uma pesquisa sobre o diretor e o contexto
em que o filme foi produzido.
2. Segundo passo (organizar e
redigir o plano de aula)
Após essa fase inicial, deve-se
elaborar o planejamento da aula, expondo os objetivos, os temas para discussão,
os critérios metodológicos e avaliativos. Cf. BURKE, Peter. Testemunha ocular:
história e imagem. Tradução de Vera Maria X. dos Santos.
Bauru: EDUSC, 2004. p. 193-196 Cf.
NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto,
2003. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais
Abril/ Maio/ Junho de 2008 Vol. 5
Ano V nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível
em: www.revistafenix.pro.br planejamento
é, fundamentalmente, a alma de uma boa aula. Uma aula bem planejada, portanto,
tem tudo para dar bons resultados, tanto do ponto de vista didático quanto da aprendizagem.
É nessa fase que o professor deve decidir-se se exibe o filme na íntegra ou
apenas parte dele. O tempo disponível na educação básica, em média 100 minutos (seqüência
de duas aulas), provoca essa preocupação. Mas são os objetivos da aula que nortearão
essa decisão. Em Nascido para matar, por exemplo, nosso objetivo é discutir a
construção ideológica do discurso militarista norte-americano. A primeira parte do filme, o momento do
treinamento dos soldados, que termina tragicamente com um assassinato e um
suicídio, fruto do rigor da formação e do catecismo militar, é suficiente para
promover o debate. A anotação preliminar, contendo observações, perguntas e questionamentos, é o ponto de
partida para redigir o plano de aula. O plano deve ter uma linguagem clara e
objetiva.
b) A Execução
3. Terceiro passo (apresentação
do plano de aula)
Antes da exibição do filme, o
professor deve expor o seu planejamento
aos alunos e entregar cópias do plano. Nele, de forma resumida, o
professor deve apresentar a sinopse do filme, algumas informações sobre o
diretor e os pontos para discussão. Utilizando outra fonte com o fim de ampliar
o debate, deve-se também evidenciar informações, para que o aluno possa
identificar o documento; em seguida, fazer um comentário preliminar da obra;
sugerir aos alunos que façam anotações, de acordo com os objetivos do plano de
aula. Durante a exibição, o professor não deve sair da sala de aula. A sua
presença é fundamental para coordenar a aula, evitando que os alunos se dispersem.
Caso algum aluno peça que o professor volte uma determinada cena para revê-la,
o professor não deve se recusar a fazê-lo, desde que isso não ocorra, de forma constante
e indiscriminada. O recomendável é deixar o filme transcorrer sem maiores interrupções.
Eleger uma parte de um determinado filme (como no nosso caso) e fatiá-lo
em partes com o objetivo de
comentar cada uma como se faz com um
texto escrito, atrapalha e quebra o ritmo da narrativa da linguagem
cinematográfica – que se assenta na articulação de imagens.
Momento de analisar e criticar o
filme. Ressaltamos que não estamos apresentando caminhos metodológicos para
formar pesquisadores; o nosso objetivo é atingir necessariamente o ensino e o
professor, indicando apenas alguns passos para melhorar sua prática. Ou seja: o
professor não precisa ser um especialista na compreensão dos mecanismos da
linguagem cinematográfica, mas, ter algumas noções básicas é suficiente para
enriquecer sua metodologia. Uma das
orientações que o professor deve fazer é pedir que os alunos prestem atenção
nos detalhes dos ângulos, nos planos e enquadramentos, aqueles detalhes que o diretor
fez questão de ressaltar. Em Nascido para matar, por exemplo, o início do filme
é significativo: jovens sentados raspando a cabeça, ao som de uma canção que versa sobre a “América” e a
guerra com “um tom de otimismo”. Filmado em primeiro plano, o valor simbólico
da cena encontra-se na fisionomia do rosto de cada jovem, que mostra o
“contentamento” de alguns e o “descontentamento” de outros. É possível perceber
a diversidade: brancos e negros e jovens aparentemente de origem latina. Pela
expressão facial, cada um transmite diversos sentimentos como medo e incerteza.
O professor pode explorar esse momento do filme para tecer algumas perguntas:
os jovens estavam satisfeitos em ir para a guerra? Como eles eram
(parecidos/diferentes)? As possibilidades, mesmo analisando essa cena, são
variadas. Segundo Jean-Louis Leutrat, pesquisador da relação cinema/história,
após “delimitar” e “medir” o “terreno” a ser analisado, um filme na íntegra ou
parte dele, o importante é analisar com precisão o objeto selecionado, e “[...]
em conformidade com sua natureza,
efetuar seus próprios movimentos de pensamento”.
Prestar atenção na justaposição
de imagens, diálogos e música. Essa relação revela discursos embutidos,
explícita ou implicitamente, na obra. Em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964),
de Glauber Rocha há um momento em que essa relação aparece: enquanto o padre e
um fazendeiro tentam convencer Antônio das Mortes (o famoso matador de
cangaceiros, interpretado por Maurício do Valle) a matar o Santo Sebastião e
seu séqüito, responsável pela crise financeira da Igreja (falta de dízimos e
doações,
“A América ouviu o chamado do clarim / Você
sabe que ele chama por você e por mim / Não creio que esta guerra um dia tenha
fim / Há luta que, mais uma vez, irá nos separar / Adeus, minha querida /Olá,
Vietnã / Aqui estou para esta guerra vencer / Dê-me um beijo de adeus / E
escreva quando eu me for / Adeus, minha querida / Olá, Vietnã”. LEUTRAT, Jean-Louis. Uma relação de diversos
andares: cinema e história. Tradução de Rubens Machado. Imagens, Campinas, n.
5, p. 32, ago./dez. 1995. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais Abril/
Maio/ Junho de 2008 Vol. 5 Ano V
nº 2
ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br segundo o
padre) sobre a cabeça das três personagens, na parede, no alto, aparece uma cruz
que permanece durante um bom tempo em evidência. Na seqüência final da cena, quando
o padre entrega o dinheiro para Antônio das Mortes, fora da Igreja, uma música religiosa
instrumental encerra a negociação. O que ele quis fazer e apresentar foi o
papel decisivo da Igreja na política de exterminar os fanáticos do Santo Sebastião, que prejudicavam os
interesses econômicos da instituição católica, utilizando simbolicamente um dos
principais símbolos do catolicismo, a cruz. Faz referência inclusive a Canudos,
onde o papel da Igreja também foi marcante
na perseguição a Antônio Conselheiro. Nada é fortuito. As imagens trazem
em si um emaranhado de significados que, à primeira vista, não é perceptível.
Pierre Sorlin, em Indispensáveis e enganosas: as imagens, testemunhas da
história, chama a atenção para que não nos tornemos “[...] vítima daquilo que
se vê”.As perguntas no plano de aula servem para guiar a discussão no momento
da crítica do filme. Elas podem ser ampliadas, durante a aula; o professor pode suscitar outras perguntas:
“Um filme diz tanto quanto for questionado. São infinitas as possibilidades de
leitura de cada filme”. Assim, para explorar o filme com a perspectiva de
atingir e alcançar os objetivos de determinada aula, a velha máxima do método
histórico que, para todo e qualquer documento, é essencial, como nos lembra Cristiane
Nova. Outro ponto importante é articular o filme ao contexto em que ele surgiu,
“[...] associá-lo ao mundo que o produz”. A análise, enfim, deve levar em conta
os elementos intrínsecos da linguagem cinematográfica com a realidade exterior,
aquilo
“[...] que não é filme: o autor,
a produção, o público, a crítica, o regime. Pode-se assim esperar compreender
não somente a obra como também a realidade que representa”.Na atividade do
plano de aula, há as seguintes perguntas: Quando o filme foi lançado no mercado?
O que você sabe do contexto político internacional, na época? Comente. O SORLIN, Pierre. Indispensáveis e enganosas: as
imagens, testemunhas da história. Tradução de AnneMarie Milon Oliveira. Estudos
Históricos, Rio de Janeiro, v. 7, n. 13, p. 88, 1994. 28 NOVA, Cristiane. O cinema e o conhecimento da
história. Olho da História, Salvador, v. 2, n. 3, p. 220, nov. 1996. FERRO,
Marc. O filme: uma contra-análise da sociedade. In: LE GOFF, Jacques.; NORA, Pierre . (Orgs.). História: novos
objetos. Tradução de Terezinha Marinho. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976,
p. 203.
Ibid. Fênix – Revista de História
e Estudos Culturais Abril/ Maio/ Junho de 2008
Vol. 5 Ano V nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br filme tem
alguma relação com a época em que foi produzido? A intenção é relacionar a obra
ao contexto da guerra fria e a política conservadora e militarista de Ronald
Reagan. Por fim, a criatividade do
professor é um elemento importante para desenvolver sua capacidade de analisar
filmes. Basta ter empenho, dedicação
para modificar sua prática. Quinto passo (articular o filme à outra fonte) Filmes, associados às outras linguagens, como
uma fotografia ou uma matéria de um jornal, sobretudo quando bem trabalhados,
podem contribuir satisfatoriamente para a construção do conhecimento histórico
entre os alunos. Neste artigo, usamos como exemplo didático o filme de Kubrick
e uma canção de Renato Russo. Citemos outra atividade. Trabalhamos, como
exemplo de uma aula sobre o Santo Ofício da Inquisição, o filme-documentário O
mito da inquisição espanhola, de Jonathan Stamp e um texto extraído do livro de
Anita Novinsky, A inquisição. O primeiro apresenta uma nova abordagem,
orientada, em parte, pelo discurso da Igreja, que desmistifica a intensidade da
perversidade e crueldade da inquisição espanhola, criticando um documento
escrito em 1567, A Discovery and playne
declaration of fundry fubtill practifes of the holy inqvisition of Spayne, de
Montanus (pseudônimo da “suposta vítima”, protestante, da inquisição), texto
que contribuiu para criar essa imagem da Espanha, segundo o filme. A sua
proposta é “derrubar mitos”. Afirma que na Espanha a tortura foi menos usada do
que em outros países, ao ponto de ter “uma ficha praticamente limpa a respeito
da tortura”, segundo um dos depoimentos. Em outro, afirma que prisioneiros
comuns blasfemavam, “a fim de ir para as prisões da inquisição para escapar dos
maus tratos recebidos nas prisões comuns”. O filme sequer aborda o seu período
mais intenso, o final do século XV e a atuação do frade dominicano Tómas de
Torquemada, inquisidor geral da Espanha, responsável por milhares de mortes de hereges,
segundo historiadores. O texto de Anita Novinsky, estudiosa do assunto, ao Atividade ministrada numa das
aulas de Estágio Supervisionado de História, no curso de História da UESC. O
mito da inquisição espanhola (The myth of the Spanish Inquisition). Direção:
Jonathan Stamp. Inglaterra/1994/52 min./Colorido. O mito da inquisição
espanhola faz parte da nossa videoteca particular. Filme gravado, exibido pela
TV Escola. NOVINSKY, Anita. A inquisição. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.
(Col. Tudo é história) Tradução do texto de Montanus: Uma reveladora e cabal
descrição das várias práticas insidiosas da santa inquisição na Espanha. Fênix – Revista de História e Estudos
Culturais Abril/ Maio/ Junho de 2008
Vol. 5 Ano V nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br contrário,
mostra que o ápice do Tribunal da Inquisição ocorreu durante a Idade Moderna (séculos XVI-XVIII), em
Portugal e na Espanha, onde judeus e muçulmanos, artistas, cientistas e
filósofos foram perseguidos. Narra os
mecanismos materiais (instrumentos de tortura) e simbólicos
(autos-de-fé) utilizados pela Igreja para julgar e punir os “hereges”. Enfim,
queimando homens ou livros, a Inquisição perseguiu todos aqueles que
questionavam a veracidade daquilo que o clero católico considerava como sendo
Verdade: a tradição e os dogmas católicos, baseados na Bíblia ou naqueles criados
pela própria Igreja. Na Espanha, entre 1480 e 1808, mais de trinta mil
“hereges” foram queimados, sendo penitenciadas quase trezentas mil pessoas.
Segundo Novinsky, “[...] esses dados são aproximados e com o avanço das
pesquisas devem ser renovados”. São dois documentos que possuem conteúdos
completamente diferentes. Relacionado e comprando interpretações díspares, os
documentos servem para promover e
instigar o debate em sala de aula e provocar no aluno a tendência a construir seu
próprio ponto de vista.
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