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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Orientações metodológicas para o trabalho com filmes


CINEMA E ENSINO DE HISTÓRIA: REALIDADE ESCOLAR, PROPOSTAS E PRÁTICAS NA SALA DE AULA
Jairo Carvalho do Nascimento
Universidade do Estado da Bahia – UNEB
jcnascimento@uneb.br
Partindo desse princípio, ao aplicar uma atividade com filmes na sala de aula, feito preliminarmente o levantamento e a escolha do filme, a partir do conteúdo da unidade e da faixa etária da turma, o professor deve tomar alguns cuidados preliminares, imprescindíveis para o bom desempenho de sua prática pedagógica. Dois cuidados são necessários: o cuidado técnico-operacional e o metodológico. O cuidado  técnicooperacional consiste na precaução que o professor deve ter em verificar, com certa antecedência, se os equipamentos eletrônicos estão em perfeitas condições de ser
usados, para que não ocorra nenhuma surpresa no dia da aula.
A parte metodológica é o suporte que orienta o bom andamento da atividade pedagógica. No caso em apreço, resume-se em dois momentos: a preparação e a execução. Ao todo são cinco passos fundamentais que devem guiar a prática docente. 
a) A Preparação 
1. Primeiro passo (ver o filme) 
Assistir ao filme que se pretende usar, pelo menos mais de uma vez. Normalmente, o professor escolhe por indicação de outro colega ou porque leu e tem algumas informações acerca do filme. Se o professor já conhece  o filme, o caminho torna-se mais fácil ainda. Deve ter um “olhar clínico”, prestando atenção nas cenas, observando detalhes e diálogos importantes. Tudo deve ser anotado. Em seguida, fazer uma pesquisa sobre o diretor e o contexto em que o filme foi produzido.
2. Segundo passo (organizar e redigir o plano de aula) 
Após essa fase inicial, deve-se elaborar o planejamento da aula, expondo os objetivos, os temas para discussão, os critérios metodológicos e avaliativos. Cf. BURKE, Peter. Testemunha ocular: história e imagem. Tradução de Vera Maria X. dos Santos.
Bauru: EDUSC, 2004. p. 193-196 Cf. NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2003. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais
Abril/ Maio/ Junho de 2008  Vol. 5  Ano V  nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br planejamento é, fundamentalmente, a alma de uma boa aula. Uma aula bem planejada, portanto, tem tudo para dar bons resultados, tanto do ponto de vista didático quanto da aprendizagem. É nessa fase que o professor deve decidir-se se exibe o filme na íntegra ou apenas parte dele. O tempo disponível na educação básica, em média 100 minutos (seqüência de duas aulas), provoca essa preocupação. Mas são os objetivos da aula que nortearão essa decisão. Em Nascido para matar, por exemplo, nosso objetivo é discutir a construção ideológica do discurso militarista norte-americano.  A primeira parte do filme, o momento do treinamento dos soldados, que termina tragicamente com um assassinato e um suicídio, fruto do rigor da formação e do catecismo militar, é suficiente para promover o debate. A anotação preliminar, contendo observações,  perguntas e questionamentos, é o ponto de partida para redigir o plano de aula. O plano deve ter uma linguagem clara e objetiva. 
b) A Execução
3. Terceiro passo (apresentação do plano de aula) 
Antes da exibição do filme, o professor deve expor o seu planejamento  aos alunos e entregar cópias do plano. Nele, de forma resumida, o professor deve apresentar a sinopse do filme, algumas informações sobre o diretor e os pontos para discussão. Utilizando outra fonte com o fim de ampliar o debate, deve-se também evidenciar informações, para que o aluno possa identificar o documento; em seguida, fazer um comentário preliminar da obra; sugerir aos alunos que façam anotações, de acordo com os objetivos do plano de aula. Durante a exibição, o professor não deve sair da sala de aula. A sua presença é fundamental para coordenar a aula, evitando que os alunos se dispersem. Caso algum aluno peça que o professor volte uma determinada cena para revê-la, o professor não deve se recusar a fazê-lo, desde que isso não ocorra, de forma constante e indiscriminada. O recomendável é deixar o filme transcorrer sem maiores interrupções. Eleger uma parte de um determinado filme (como no nosso caso) e fatiá-lo
em partes com o objetivo de comentar cada uma como se faz com um  texto escrito, atrapalha e quebra o ritmo da narrativa da linguagem cinematográfica – que se assenta na articulação de imagens.     
4. Quarto passo (análise propriamente dita)  Fênix – Revista de História e Estudos Culturais Abril/ Maio/ Junho de 2008  Vol. 5  Ano V  nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br
Momento de analisar e criticar o filme. Ressaltamos que não estamos apresentando caminhos metodológicos para formar pesquisadores; o nosso objetivo é atingir necessariamente o ensino e o professor, indicando apenas alguns passos para melhorar sua prática. Ou seja: o professor não precisa ser um especialista na compreensão dos mecanismos da linguagem cinematográfica, mas, ter algumas noções básicas é suficiente para enriquecer sua metodologia.  Uma das orientações que o professor deve fazer é pedir que os alunos prestem atenção nos detalhes dos ângulos, nos planos e enquadramentos, aqueles detalhes que o diretor fez questão de ressaltar. Em Nascido para matar, por exemplo, o início do filme é significativo: jovens sentados raspando a cabeça, ao som de  uma canção que versa sobre a “América” e a guerra com “um tom de otimismo”. Filmado em primeiro plano, o valor simbólico da cena encontra-se na fisionomia do rosto de cada jovem, que mostra o “contentamento” de alguns e o “descontentamento” de outros. É possível perceber a diversidade: brancos e negros e jovens aparentemente de origem latina. Pela expressão facial, cada um transmite diversos sentimentos como medo e incerteza. O professor pode explorar esse momento do filme para tecer algumas perguntas: os jovens estavam satisfeitos em ir para a guerra? Como eles eram (parecidos/diferentes)? As possibilidades, mesmo analisando essa cena, são variadas. Segundo Jean-Louis Leutrat, pesquisador da relação cinema/história, após “delimitar” e “medir” o “terreno” a ser analisado, um filme na íntegra ou parte dele, o importante é analisar com precisão o objeto selecionado, e “[...] em conformidade com sua natureza,  efetuar seus próprios movimentos de pensamento”.
Prestar atenção na justaposição de imagens, diálogos e música. Essa relação revela discursos embutidos, explícita ou implicitamente, na obra. Em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha há um momento em que essa relação aparece: enquanto o padre e um fazendeiro tentam convencer Antônio das Mortes (o famoso matador de cangaceiros, interpretado por Maurício do Valle) a matar o Santo Sebastião e seu séqüito, responsável pela crise financeira da Igreja (falta de dízimos e doações,
 “A América ouviu o chamado do clarim / Você sabe que ele chama por você e por mim / Não creio que esta guerra um dia tenha fim / Há luta que, mais uma vez, irá nos separar / Adeus, minha querida /Olá, Vietnã / Aqui estou para esta guerra vencer / Dê-me um beijo de adeus / E escreva quando eu me for / Adeus, minha querida / Olá, Vietnã”.   LEUTRAT, Jean-Louis. Uma relação de diversos andares: cinema e história. Tradução de Rubens Machado. Imagens, Campinas, n. 5, p. 32, ago./dez. 1995. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais Abril/ Maio/ Junho de 2008  Vol. 5  Ano V  nº 2
ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br segundo o padre) sobre a cabeça das três personagens, na parede, no alto, aparece uma cruz que permanece durante um bom tempo em evidência. Na seqüência final da cena, quando o padre entrega o dinheiro para Antônio das Mortes, fora da Igreja, uma música religiosa instrumental encerra a negociação. O que ele quis fazer e apresentar foi o papel decisivo da Igreja na política de exterminar os fanáticos do  Santo Sebastião, que prejudicavam os interesses econômicos da instituição católica, utilizando simbolicamente um dos principais símbolos do catolicismo, a cruz. Faz referência inclusive a Canudos, onde o papel da Igreja também foi marcante  na perseguição a Antônio Conselheiro. Nada é fortuito. As imagens trazem em si um emaranhado de significados que, à primeira vista, não é perceptível. Pierre Sorlin, em Indispensáveis e enganosas: as imagens, testemunhas da história, chama a atenção para que não nos tornemos “[...] vítima daquilo que se vê”.As perguntas no plano de aula servem para guiar a discussão no momento da crítica do filme. Elas podem ser ampliadas, durante a aula;  o professor pode suscitar outras perguntas: “Um filme diz tanto quanto for questionado. São infinitas as possibilidades de leitura de cada filme”. Assim, para explorar o filme com a perspectiva de atingir e alcançar os objetivos de determinada aula, a velha máxima do método histórico que, para todo e qualquer documento, é essencial, como nos lembra Cristiane Nova. Outro ponto importante é articular o filme ao contexto em que ele surgiu, “[...] associá-lo ao mundo que o produz”. A análise, enfim, deve levar em conta os elementos intrínsecos da linguagem cinematográfica com a realidade exterior, aquilo
“[...] que não é filme: o autor, a produção, o público, a crítica, o regime. Pode-se assim esperar compreender não somente a obra como também a realidade que representa”.Na atividade do plano de aula, há as seguintes perguntas: Quando o filme foi lançado no mercado? O que você sabe do contexto político internacional, na época? Comente. O  SORLIN, Pierre. Indispensáveis e enganosas: as imagens, testemunhas da história. Tradução de AnneMarie Milon Oliveira. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 7, n. 13, p. 88, 1994. 28  NOVA, Cristiane. O cinema e o conhecimento da história. Olho da História, Salvador, v. 2, n. 3, p. 220, nov. 1996. FERRO, Marc. O filme: uma contra-análise da sociedade. In: LE GOFF, Jacques.; NORA, Pierre. (Orgs.). História: novos objetos. Tradução de Terezinha Marinho. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 203. 
Ibid. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais Abril/ Maio/ Junho de 2008  Vol. 5  Ano V  nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br filme tem alguma relação com a época em que foi produzido? A intenção é relacionar a obra ao contexto da guerra fria e a política conservadora e militarista de Ronald Reagan.  Por fim, a criatividade do professor é um elemento importante para desenvolver sua capacidade de analisar filmes. Basta ter  empenho, dedicação para modificar sua prática. Quinto passo (articular o filme à outra fonte)  Filmes, associados às outras linguagens, como uma fotografia ou uma matéria de um jornal, sobretudo quando bem trabalhados, podem contribuir satisfatoriamente para a construção do conhecimento histórico entre os alunos. Neste artigo, usamos como exemplo didático o filme de Kubrick e uma canção de Renato Russo. Citemos outra atividade. Trabalhamos, como exemplo de uma aula sobre o Santo Ofício da Inquisição, o filme-documentário O mito da inquisição espanhola, de Jonathan Stamp e um texto extraído do livro de Anita Novinsky, A inquisição. O primeiro apresenta uma nova abordagem, orientada, em parte, pelo discurso da Igreja, que desmistifica a intensidade da perversidade e crueldade da inquisição espanhola, criticando um documento escrito em 1567,  A Discovery and playne declaration of fundry fubtill practifes of the holy inqvisition of Spayne, de Montanus (pseudônimo da “suposta vítima”, protestante, da inquisição), texto que contribuiu para criar essa imagem da Espanha, segundo o filme. A sua proposta é “derrubar mitos”. Afirma que na Espanha a tortura foi menos usada do que em outros países, ao ponto de ter “uma ficha praticamente limpa a respeito da tortura”, segundo um dos depoimentos. Em outro, afirma que prisioneiros comuns blasfemavam, “a fim de ir para as prisões da inquisição para escapar dos maus tratos recebidos nas prisões comuns”. O filme sequer aborda o seu período mais intenso, o final do século XV e a atuação do frade dominicano Tómas de Torquemada, inquisidor geral da Espanha, responsável por milhares de mortes de hereges, segundo historiadores. O texto de Anita Novinsky, estudiosa  do assunto, ao Atividade ministrada numa das aulas de Estágio Supervisionado de História, no curso de História da UESC. O mito da inquisição espanhola (The myth of the Spanish Inquisition). Direção: Jonathan Stamp. Inglaterra/1994/52 min./Colorido. O mito da inquisição espanhola faz parte da nossa videoteca particular. Filme gravado, exibido pela TV Escola. NOVINSKY, Anita. A inquisição. 8 ed. São Paulo: Brasiliense, 1992. (Col. Tudo é história) Tradução do texto de Montanus: Uma reveladora e cabal descrição das várias práticas insidiosas da santa inquisição na Espanha.  Fênix – Revista de História e Estudos Culturais Abril/ Maio/ Junho de 2008  Vol. 5  Ano V  nº 2 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br contrário, mostra que o ápice do Tribunal da Inquisição ocorreu durante  a Idade Moderna (séculos XVI-XVIII), em Portugal e na Espanha, onde judeus e muçulmanos, artistas, cientistas e filósofos foram perseguidos. Narra os  mecanismos materiais (instrumentos de tortura) e simbólicos (autos-de-fé) utilizados pela Igreja para julgar e punir os “hereges”. Enfim, queimando homens ou livros, a Inquisição perseguiu todos aqueles que questionavam a veracidade daquilo que o clero católico considerava como sendo Verdade: a tradição e os dogmas católicos, baseados na Bíblia ou naqueles criados pela própria Igreja. Na Espanha, entre 1480 e 1808, mais de trinta mil “hereges” foram queimados, sendo penitenciadas quase trezentas mil pessoas. Segundo Novinsky, “[...] esses dados são aproximados e com o avanço das pesquisas devem ser renovados”. São dois documentos que possuem conteúdos completamente diferentes. Relacionado e comprando interpretações díspares, os documentos servem  para promover e instigar o debate em sala de aula e provocar no aluno a tendência a construir seu próprio ponto de vista.

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