Revista Brasileira de História
Print version ISSN 0102-0188
Rev. bras.
Hist. vol.19 n.38 São Paulo 1999
doi:
10.1590/S0102-01881999000200006
A guerra
das narrativas: debates e ilusões em torno do ensino de História*
Christian Laville
Universidade Laval, Quebec
RESUMO
Em quase todas as partes do mundo, os programas escolares exigem que o ensino da história desenvolva nos alunos a autonomia intelectual e o pensamento crítico. Há muito tempo não se vê mais a missão de incutir nas consciências uma narrativa única glorificando a nação ou a comunidade. No entanto, quando o ensino da história é questionado nos debates públicos, é sempre com referência a esse tipo de narrativa: embora não fazendo mais parte dos programas, esse continua sendo o único objeto dos debates. Este artigo dá inúmeros exemplos atuais de tais debates, antes de concluir que são provavelmente vãos e que as pessoas se iludem sobre os efeitos reais da história ensinada. Alguns exemplos também são dados a esse respeito.
Palavras-chave: Ensino de História; Política; Narrativa.
Em quase todas as partes do mundo, os programas escolares exigem que o ensino da história desenvolva nos alunos a autonomia intelectual e o pensamento crítico. Há muito tempo não se vê mais a missão de incutir nas consciências uma narrativa única glorificando a nação ou a comunidade. No entanto, quando o ensino da história é questionado nos debates públicos, é sempre com referência a esse tipo de narrativa: embora não fazendo mais parte dos programas, esse continua sendo o único objeto dos debates. Este artigo dá inúmeros exemplos atuais de tais debates, antes de concluir que são provavelmente vãos e que as pessoas se iludem sobre os efeitos reais da história ensinada. Alguns exemplos também são dados a esse respeito.
Palavras-chave: Ensino de História; Política; Narrativa.
ABSTRACT
Almost everywhere in the world, official school curricula require that the teaching of history develop students' capacity for intellectual autonomy and critical thinking. They don't bear anymore the mission to instil in students' consciousness a single narrative glorifying the nation or the community. Still, whenever the teaching of history is called into question in public debates, it is always in reference to this sort of narrative: school curricula do not include it, yet it is the sole point of these debates. The article gives several examples of such debates throughout the world. It then concludes that these are most probably pointless debates as it seems we overestimate the actual effects of history education. Examples of this are also given.
Keywords: History Education; Politics; Narrative.
Almost everywhere in the world, official school curricula require that the teaching of history develop students' capacity for intellectual autonomy and critical thinking. They don't bear anymore the mission to instil in students' consciousness a single narrative glorifying the nation or the community. Still, whenever the teaching of history is called into question in public debates, it is always in reference to this sort of narrative: school curricula do not include it, yet it is the sole point of these debates. The article gives several examples of such debates throughout the world. It then concludes that these are most probably pointless debates as it seems we overestimate the actual effects of history education. Examples of this are also given.
Keywords: History Education; Politics; Narrative.
Para liquidar os povos, começa-se
por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E
uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes
inventa uma outra História.
Milan Kundera. O Livro do Riso e do Esquecimento, 1978.
Milan Kundera. O Livro do Riso e do Esquecimento, 1978.
Houve um tempo em que o ensino da
história nas escolas não era mais do que uma forma de educação cívica. Seu
principal objetivo era confirmar a nação no estado em que se encontrava no
momento, legitimar sua ordem social e política - e ao mesmo tempo seus
dirigentes - e inculcar nos membros da nação - vistos, então, mais como súditos
do que como cidadãos participantes - o orgulho de a ela pertencerem, respeito
por ela e dedicação para servi-la. O aparelho didático desse ensino era
simples: uma narração de fatos seletos, momentos fortes, etapas decisivas,
grandes personagens, acontecimentos simbólicos e, de vez em quando, alguns
mitos gratificantes. Cada peça dessa narrativa tinha sua importância e era
cuidadosamente selecionada.
Essa maneira de ensinar a
história foi se tornando menos necessária à medida que as nações foram
percebendo que estavam bem assentadas e cessaram de temer por sua própria
existência. Nos países ocidentais, o fim da Segunda Guerra Mundial foi o marco
de uma etapa importante. O resultado da guerra foi percebido como a vitória da
democracia, uma democracia cujo princípio não se discutia mais a partir de
então, mas que precisava agora funcionar bem, ou seja, com a participação dos
cidadãos, como manda o princípio democrático. A idéia de "cidadão
participante" começou a substituir a de "cidadão-súdito" .
O ensino da história não deixou de ganhar com isso. Ao contrário, viu a função
de educação para a cidadania democrática substituir sua função anterior de
instrução nacional.
Grosso modo, dali em diante era
preciso tornar os jovens capazes de participar democraticamente da sociedade e
desenvolver neles as capacidades intelectuais e afetivas necessárias para tal.
Os conteúdos fatuais passavam a ser menos determinados de antemão, menos
exclusivos, abrindo-se à variedade e ao relativo. Contudo, o mais importante é
que, como o desenvolvimento das capacidades se dá com a prática, a pedagogia da
história passava de uma pedagogia centrada no ensino para uma pedagogia
centrada nas aprendizagens dos alunos.
Todos os países ocidentais
parecem ter percorrido esse caminho, e também é o que ocorre com muitos outros
países espalhados pelos cinco continentes. Para constatar, basta examinar os
programas 'propostos' e o discurso com o qual é apresentado
atualmente o ensino da história. No entanto, em muitos desses países, quando o
ensino da história é criticado ou acusado, quando provoca debates, como muitas
vezes acontece, não é porque as pessoas se inquietam com o alcance dos
objetivos de formação que lhe são oficialmente atribuídos, mas 'em razão' dos
conteúdos fatuais, por se julgar que certos elementos estariam ausentes e que
outros estariam sendo ensinados em lugar de coisa melhor, como se o ensino da
história continuasse sendo o veículo de uma narração exclusiva que precisa ser
assimilada custe o que custar. Vê-se aí o estranho paradoxo de um ensino
destinado a uma determinada função, mas acusado de não cumprir outra que não
lhe é mais atribuída. Há numerosos casos assim neste fim de século e alguns
deles serão evocados aqui. Em seguida, e para concluir, consideraremos um outro
paradoxo decorrente do primeiro: o de se acreditar que pela manipulação dos
conteúdos é possível dirigir as consciências ou as memórias, quando a
experiência do presente século mostra que está longe de ser tão certo assim quanto
tantos parecem acreditar, o que provavelmente não passa de uma grande ilusão.
EXEMPLOS ILUSTRATIVOS (1):
PARA MANTER A ORDEM ESTABELECIDA
A maioria das vezes, o que está
em jogo nos debates a respeito dos conteúdos do ensino da história é a manutenção
de uma determinada tradição. O caso dos National Standards for History nos
Estados Unidos é um bom exemplo disso.
Nos Estados
Unidos, como se sabe, a educação é da responsabilidade dos Estados e não da
administração federal. Há algum tempo, no entanto, o governo federal americano
vinha se mostrando inquieto com relação ao ensino da história, por duas razões,
entre outras. Primeiro, porque se julgava que os homens de negócios
americanos perdiam muito por conhecerem insuficientemente as culturas estrangeiras;
em seguida, porque se acreditava que a história facilitaria a integração das
minorias culturais. Já na administração do presidente Reagan, um relatório
sobre a educação intitulado A Nation at Risk fizera referência
à educação histórica; na de Bill Clinton, os governadores dos Estados aprovaram
um projeto de reforma da educação, o projeto America 20001,
que insistia para que a história se tornasse matéria básica para todos. No
mesmo momento, outros se preocupavam com a erosão dos conhecimentos culturais
dos jovens americanos, ou com o espaço crescente ocupado pelo ensino de social
studies ao lado das disciplinas tradicionais de história e geografia2.
Foi nesse
contexto que um grupo de historiadores e de pedagogos, juntamente com várias
centenas de consultores e de especialistas de todas as partes, elaborou um
projeto de normas nacionais para o ensino da história, os national
standards para o ensino de história dos Estados Unidos e de história
geral3.
Em tais circunstâncias, o que devia ser apenas um conjunto de sugestões
apresentadas aos Estados logo se transformou numa querela nacional. A direita
se enfureceu. Embora sugerindo certos conteúdos, pois não se pode ensinar
história sem conteúdos, o que os standards propunham,
essencialmente, eram objetivos de formação, mas somente os conteúdos são
atacados. O que se diz é que, com essa abertura à história mundial, as tais
normas estariam insuflando um relativismo cultural e colocando em perigo a civilização
ocidental branca e cristã e, conseqüentemente, a civilização americana; ao se
abrir à história social, aos imigrantes, às mulheres, aos negros, ao tratar do
Klu Klux Klan e do McCartysmo, as normas estariam querendo obscurecer heróis
como Washington, Thomas Edison ou Paul Revere e deixando apenas um pequeno espaço
para a Constituição4.
Mesmo que o governo federal não tenha nada a ver com a educação, Newt Gingrich,
líder republicano na Câmara, conseguiu levar a questão ao Senado e fez com que
os senadores se pronunciassem sobre os standards: 99 deles votaram
contra, um se absteve (porque não achava a condenação bastante consistente).
Pouco tempo antes, um debate
semelhante ocorrera na Inglaterra a respeito do ensino da história. Na
Inglaterra, não havia um programa nacional para essa disciplina. As escolas e
os professores gozavam de uma grande liberdade na definição e na prática do
ensino. Eles haviam, contudo, elaborado um programa, o Schools Council
History Project, que terminara sendo adotado por aproximadamente um terço
dos professores e exercia uma grande influência sobre o ensino de história em
geral. Era um programa moderno, que seguia a tendência dos programas atuais
descritos na introdução, mas ensinado com essa grande liberdade desfrutada
pelos professores britânicos e, portanto, com muita variedade nos conteúdos. O
governo conservador da época, e a própria Margaret Thatcher, preocuparam-se com
isso. Podia acontecer, e efetivamente acontecia, que se ensinasse pouco a
respeito da Inglaterra e de seu passado glorioso, por exemplo, nos enclaves de
comunidades culturais onde se procurava tornar a história facilmente acessível
aos alunos, com assuntos próximos da realidade deles, em detrimento, segundo os
conservadores, da aquisição de uma memória comum bem britânica.
Foi iniciada,
então, a preparação de exames nacionais, seguida de um programa nacional de
história, o National Curriculum for History5,
com os conteúdos desejados pelos conservadores, é claro. Aqui, mais uma vez, o
debate em torno dos conteúdos, tanto na mídia quanto na opinião pública, foi
intenso e durou vários anos6.
Mas o debate também foi intenso entre os professores, muitos dos quais
resistiram e acabaram conseguindo um acordoque passou a vigorar desde o início
do ano letivo de 1995, acordo esse que preserva em parte os objetivos de
formação que eles queriam conservar, embora com abundantes conteúdos
pré-determinados.
Muitos outros exemplos
ilustrativos poderiam ser citados. Lembremo-nos de um outro debate vigoroso que
agitou a França na década de 1970 e no início da década de 1980, quando da
implantação de uma reforma dos programas de história, a qual, pela primeira
vez, rompia com a tradição dos programas iniciada na Terceira República.
Centrados no aluno, orientados para o desenvolvimento das capacidades e
privilegiando uma pedagogia de aprendizagem pela descoberta, e não uma
pedagogia da recepção, os novos programas pareciam negligenciar alguns
personagens nacionais da cronologia tradicional. Houve indignação em todas as
famílias políticas, ao ponto de se ver surgir aquela estranha coligação formada
pelo gaullista Michel Debré, pelo socialista Jean-Pierre Chevenement e pelo
historiador popular Alain Decaux, coligação essa que foi batizada pelos
jornalistas de "Santa Aliança da História Nacional". Dois
presidentes, sucessivamente, vieram juntar-se ao cortejo de indignados: Valéry
Giscard-d'Estaing e, depois, François Mitterrand, que declarou estar
"escandalizado e angustiado com as carências do ensino da história"7.
A reforma não resistiu durante muito tempo e, a partir de meados da década de
1980, voltava-se ao que havia de mais convencional.
É interessante notar quanto
interesse, quanta vigilância e quantas intervenções o ensino de história
suscita nos mais altos níveis. A história é certamente a única disciplina
escolar que recebe intervenções diretas dos altos dirigentes e a consideração
ativa dos parlamentos. Isso mostra quão importante é ela para o poder.
EXEMPLOS ILUSTRATIVOS (2):
QUANDO OS ESTADOS SE RECONSTITUEM
Entre as decisões tomadas pelos
vencedores ao fim da Segunda Guerra Mundial, houve a de proibir o ensino da
história ministrado nos países vencidos, a fim de neutralizar seus conteúdos
fatuais antes de substitui-los por outros. Foi uma das primeiras decisões,
senão a primeira, do Alto Comando aliado em Berlim; a mesma coisa se deu na
Itália e no Japão.
Cinqüenta anos mais tarde, apesar
do avanço efetuado pelo ensino de história, ainda é assim que o tratam quando
se passa de um regime a outro. Os ex-países do leste europeu oferecem inúmeros
exemplos disso.
Na maioria deles, mal a transição
começou, o ensino de história já era submetido à revisão: revisão dos programas
e dos manuais, e sobretudo dos manuais, mais do que da pedagogia, pois tudo
isso é principalmente uma questão de narrativa. Grosso modo, essa revisão
consiste em reescrever, apagando aquilo que se quer esquecer do antigo regime e
introduzindo ou reintroduzindo - as famosas "páginas brancas" - o que
parece necessário para a construção ou consolidação da memória coletiva que se
quer agora.
Às vezes, o
realinhamento é brutal. Foi assim na ex-Alemanha Oriental8.
De um dia para o outro, ou quase, os manuais foram retirados e os professores
de história foram suspensos: porque estudaram e ensinaram "a história
errada", e não se via como poderiam, agora, ensinar a "certa". É
claro que isso provocou reações. Os sindicatos se envolveram, os meios de
comunicação, entre os quais os estrangeiros, abordaram o assunto. Decidiu-se,
então, que os professores seriam, eventualmente, recontratados, mas somente
depois de passarem por um exame, baseado essencialmente no pensamento liberal.
Exames do mesmo tipo foram empregados noutros lugares. Às vezes, havia até
questões sobre a Bíblia.
Ainda na Alemanha Oriental, como
os manuais não podiam ser refeitos de um dia para o outro, começaram a ser
importados manuais da Alemanha Ocidental. Assim, na Saxônia, um dos länder mais
avançados econômica e culturalmente, o ano letivo de 1991 foi iniciado com
manuais de história da Baviera, onde a corrente conservadora é muito
importante.
Mesmo não sendo sempre tão
brutal, a mudança é geralmente brusca. Na Rússia, por exemplo, mal a glasnosthavia
começado e já se julgava que os instrumentos usados no ensino da história
deviam ser substituídos. E como eles não podiam ser substituídos
instantaneamente, foram suspensos os exames oficiais e, em muitas escolas, o
próprio ensino de história. Na Ucrânia, desde o início da liberalização, houve
três fases de transição: do totalitarismo à democracia, da economia dirigida ao
livre mercado, de república dependente a Estado independente. Conforme a
socióloga Irina Bekeshkina, cada uma dessas fases foi acompanhada por uma nova
interpretação histórica, cada uma delas amparada por um novo discurso político.
Assim, segundo ela, o capitalismo, que era definido como "um sistema de
exploração moribundo", tornou-se "um futuro brilhante"; a nação,
antigamente "destinada a desaparecer no processo de reunião da comunidade
soviética", tornou-se a base fundamental da vida humana e da história9...
Na pressa, cada
comunidade quer seu manual, sua narrativa histórica própria. Quando não é
possível prepará-lo com bastante rapidez, usam-se velhos livros, totalmente
ultrapassados do ponto de vista historiográfico. Assim, para os quatro milhões
de lituanos, foi novamente publicada, com uma tiragem de 155.000 exemplares,
uma história da Lituânia que data da década de 193010.
Aconteceu a mesma coisa na República Tcheca, onde, após os acontecimentos de
1989, os editores colocaram de novo no mercado os manuais de história do Estado
tcheco e tchecoslovaco publicados entre 1918 e 1938 ou entre 1945 e 194811.
Em outros lugares, acontece de simplesmente traduzirem os manuais de história
estrangeiros, como na Rússia, onde existe atualmente o projeto de tradução de
um manual americano de história geral que, a meu ver, os jovens russos vão
achar bem estranho!
Cada comunidade quer ver a sua
própria história contada. Na Rússia, mais uma vez, um colega me disse estar
ligado ao projeto de elaboração do manual de uma pequena comunidade do Norte,
composta de 50.000 habitantes, aproximadamente, que patrocina, com a ajuda de
um imposto especial, a redação de sua história singular. Na Bósnia, cada
comunidade também deseja tanto ter o seu próprio ensino de história que são
redigidos manuais diferentes, com narrativas e heróis diferentes - às vezes
adversários - para os jovens sérvios, croatas ou muçulmanos. Até pensaram em
adotar programas de história diferentes numa mesma escola.
Nessas histórias, encontram-se
freqüentemente os antigos defeitos das historiografias nacionalistas escolares
que pensávamos já terem desaparecido: legitimação, justificação, glorificação,
mitificação, mobilização das consciências, às vezes com a inteira submissão do
ensino da história à causa de um nacionalismo exaltado. Assim, na Estônia, os
próprios autores da reforma do ensino de história explicam: "Toda a
reforma do ensino da história devia ser, antes de tudo, uma luta para resgatar
e reforçar a identidade nacional. Toda a história estoniana foi reorganizada,
no novo programa reformulado, seguindo uma linha nacionalista. A trama
histórica foi sobreposta ao projeto nacional"12.
Também foi assim na Eslovênia, onde Vesna Gidiva e Valentina Hlebec constatam
que: "É mais do que evidente que ensinar história é antes de tudo um
trabalho ideológico e político e não uma questão de normas profissionais"13.
Se os ex-países do leste europeu
oferecem bons exemplos da maneira como a história é tratada quando um Estado é
reconstituído, não é só nesses países, evidentemente, que ocorrem tais
situações. Pensemos na África do Sul, por exemplo, onde foi só após um debate
muito longo e árduo - a narrativa de uma história negra? branca? com que
densidade relativa de branco e de negro? - que o Ministério da Educação acabou
elaborando seu projeto para a redação de novos manuais e conseguiu fazer com
que o Parlamento o aprovasse (mas o debate corre o risco de continuar, pois os
novos manuais só são esperados para o ano 2000). Pensemos igualmente na China,
onde, três meses antes da reanexação de Hong Kong, o ministro dos Assuntos
Exteriores já estava anunciando, diante da Assembléia Nacional Popular, que os
manuais seriam revistos, pois, explicava ele, "o conteúdo de certos livros
escolares atualmente usados em Hong Kong não está conforme à História e à
realidade. Eles não são compatíveis com as mudanças que vão ocorrer em 1997 e
são contrários ao espírito do princípio 'um país, dois sistemas', bem como
à Constituição"14.
Como se dizia em Moscou, o passado é imprevisível! É verdade que a China ainda
não tem a obrigação de implantar um ensino da história que prepare para a participação
democrática.
EXEMPLOS ILUSTRATIVOS (3):
PARA LUTAR CONTRA O ESTADO
Às vezes, são grupos dissidentes
que atacam as narrativas históricas impostas ao ensino pelo Estado. No Japão,
por exemplo, há várias décadas historiadores e professores, apoiados por
diversos grupos, entre os quais uma associação para a verdade na história
composta de milhares de membros, combatem a censura que o Ministério da
Educação exerce sobre o conteúdo dos manuais. É uma censura muito rigorosa.
Tudo o que, aos olhos do ministério, poderia diminuir a imagem positiva do
Japão na história é proibido. Para contar os fatos, é preciso utilizar um
vocabulário padronizado. Assim, para falar da invasão da China pelo Japão na
década de 1930, deve-se falar de "progressão militar"; para falar da
pilhagem de Nankin em 1937, quando 150.000 civis foram massacrados, conta-se
que "o exército japonês ocupou a cidade num ambiente de agitação excessiva
e de cólera"; é preciso escrever "incidente" ao invés de
"revolta", "suicídio coletivo de civis" ao invés de
"massacre", "mulheres de conforto" ao invés de
"prostitutas" De manifestação em manifestação, de processo em
processo - alguns dos quais chegaram até à corte suprema -, bem como sob as
pressões estrangeiras, a situação parece estar se amenizando um pouco. De fato,
não é mais necessário falar da anexação da Coréia em 1910 como sendo uma
"fusão pacífica", e o Primeiro Ministro aceitou reconhecer, há algum
tempo, a questão das "esposas deconsolação"15.
Nesse ensino da história, porém, são sempre e unicamente os termos da narrativa
que estão em causa.
No México, em
1992, é uma coalizão de liberais e de progressistas que ataca os manuais de história
para o primário que o governo de Carlos Salinas queria impor. No contexto das
negociações do mercado comum norte-americano, os novos manuais elogiavam as
políticas econômicas presentes e passadas do México e sua abertura ao
capitalismo internacional, ao mesmo tempo que minimizavam os episódios
contestatórios ou revolucionários de sua história. O debate foi enérgico e os
manuais foram revistos16.
A narrativa histórica pode também
ser vista como uma tomada de poder por grupos sem poder. Vejamos um exemplo
disso no Brasil, onde, em vários Estados, principalmente em Minas Gerais e São
Paulo, os professores de história haviam lutado, durante a ditadura, para
conseguir um programa cujo conteúdo fosse definido de acordo com seu ponto de
vista de militantes. No caso de Minas Gerais, eles queriam opor aos
programas oficiais, de cunho nacionalista e positivista, um conteúdo de
história marxista clássico que apresentasse as etapas sucessivas de formação
econômica e integrasse o nacional ao universal. Tratava-se, sobretudo, de
trocar uma narrativa por outra narrativa. Esse programa foi conseguido com a
redemocratização, mas, agora, como o combate, em grande parte, esgotou-se,
parece que os professores fazem menos questão de
afirmarem seu poder17.
EXEMPLOS ILUSTRATIVOS (4):
DEFINIR UMA IDENTIDADE SUPRANACIONAL
Todos os exemplos anteriores de
fixação em relação à narrativa histórica e à sua manipulação ocorriam no âmbito
da nação. Mas pode ocorrer que se queira oferecer uma narrativa situada além
desse contexto e que até reduza o seu alcance. É o caso do projeto de ISESCO de
propor aos alunos dos países muçulmanos um programa islâmico de ensino da
história. Trata-se de ensinar, aos alunos dos diferentes países, que, apesar de
suas identidades nacionais, eles pertencem antes de tudo à grande comunidade
dos muçulmanos. Os seguintes trechos dos objetivos do projeto dão testemunho
disso: "enraizar o aluno em sua identidade individual e nacional,
fixando-o na comunidade muçulmana e destacando o fato de que sua identidade o
liga intimamente, por meio de laços indeléveis, religiosos, históricos e
culturais, à comunidade islâmica"; "desenvolver no aluno o senso da
responsabilidade e o sentimento de orgulho em relação à comunidade islâmica,
com base na força desta e na convicção da necessidade de instaurar a unidade muçulmana
em todos os setores"; "o que procuramos destacar, através dos
assuntos escolhidos para esse programa, é que os povos muçulmanos formaram, ao
longo da história, uma única comunidade ligada por laços de cooperação e
de complementaridade"18.
Enfim, o programa consiste numa longuíssima lista das matérias a serem
ensinadas, matérias que representam as balizas detalhadas de uma outra
narrativa feita sob medida para dar uma roupagem à única identidade almejada.
Atualmente,
entre os indígenas das Américas, também está surgindo uma vontade similar de
ter uma narrativa histórica que se situe deliberadamente acima dos Estados.
Assim, a última parte do programa nacional de história do Quebec e do Canadá
adotado pelos índios Cris trata, ironicamente, do advento da "pátria
cri"19.
* * *
Essas são algumas ilustrações
daquilo que anunciamos na introdução como um primeiro paradoxo: enquanto na
maioria dos países se diz que o objetivo do ensino da história é desenvolver
nos alunos as capacidades de que o cidadão precisa para participar da sociedade
de maneira autônoma e refletida, o ensino da história, ainda é, muitas vezes,
reduzido a uma narrativa fechada, destinada a moldar as consciências e a ditar
as obrigações e os comportamentos para com a nação. Observou-se que, quando, em
nosso mundo, há um debate público em torno do ensino da história, é
essa narrativa que está quase sempre em jogo.
Essa observação nos leva a
constatar um segundo paradoxo: o de acreditar em semelhante ensino da história,
quando muitos fatos parecem mostrar que pensar que ainda é possível regular as
consciências e os comportamentos por meio do ensino da história não passaria de
uma vã ilusão. A experiência, de fato, mostra outra coisa. Aqui vão alguns
exemplos disso.
Para começar, vejamos o que
ocorre em Quebec. Durante mais de meio século, os únicos objetivos do ensino da
história eram ensinar aos canadenses de língua francesa a necessidade de
sobreviver enquanto povo e de proteger a língua e a fé, além da adesão ao
grande todo canadense, que era a garantia para tal sobrevivência.Assim,
lia-se entre os objetivos principais dos programas: "O estudo da história
de nosso país contribuirá para formar melhor o bom cidadão do Canadá de
amanhã"20;
"fazer desse ensino uma verdadeira lição de educação nacional que
desenvolva em todos os nossos alunos o orgulho legítimo de dizer que são
cidadãos do Canadá e a ambição de se tornar um perfeito cidadão e de contribuir
para o progresso e para a grandeza do povo canadense"21.
Muitas pessoas da minha geração poderiam dar testemunho de que os programas
eram seguidos à risca. No entanto, na primeira oportunidade, na virada dos anos
1950, os quebequenses fizeram, em alguns meses, exatamente o oposto do que lhes
vinha sendo ensinado, dia após dia, há mais de meio século. E logo a metade
deles começou a dizer que queria se separar daquele Canadá que haviam querido
obrigá-los a amar.
Outro exemplo na ex-União
Soviética. Durante várias décadas, haviam ensinado ali, por meio da história,
que o capitalismo era o inferno e que o socialismo abriria as portas do
paraíso. O que fizeram os membros das diversas repúblicas assim que tiveram a
oportunidade? Escolheram o inferno!
Outro exemplo,
desta feita na Alemanha. Uma pesquisa recente mostra que os jovens da Alemanha
Ocidental e da Alemanha Oriental, oriundos de sociedades que conheceram ensinos
de história bem diferentes, não apresentam, no entanto, diferenças
significativas em suas representações, conceitos e atitudes22.
Outro exemplo,
tirado também da pesquisa que acaba de ser mencionada: na Cisjordânia e na
banda de Gaza, onde o exército israelita controla o ensino da história e
censura os manuais, os jovens palestinos desenvolveram uma consciência
histórica sem relação com os conteúdos do ensino da história23.
Tudo isso para dizer que é
possível que todos esses esforços para controlar os conteúdos do ensino da
história, bem como os debates que isso provoca, estejam alicerçados numa
ilusão. Neste fim de século, é possível que a narrativa histórica não tenha
mais tanto poder, que a família, o meio ao qual se pertence, circunstâncias
marcantes no ambiente em que se vive, mas sobretudo os meios de comunicação, tenham
muito mais influência. O que deveria nos levar a não perder de vista a função
social geralmente declarada hoje a respeito do ensino da história: formar
indivíduos autônomos e críticos e levá-los a desenvolver as capacidades
intelectuais e afetivas adequadas, fazendo com que trabalhem com conteúdos
históricos abertos e variados, e não com conteúdos fechados e determinados como
ainda são com freqüência as narrativas que provocam disputas. Senão, essas
guerras de narrativas desencadeadas em todo o mundo vão acabar gerando somente
perdedores, tanto no que diz respeito à identidade nacional quanto em relação à
vida democrática.
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